Dicas de Interpretação de Textos
0. O Texto
A etimologia da palavra texto rememora o latim clássico, textus, que era o mesmo que tecido (por isso têxtil), ou também significava “colcha de retalhos”. Frequentemente isso ocorre na língua, uma palavra usada num sentido metafórico acaba sendo usada para aquilo que quer nomear.
Se pensarmos na etimologia da palavra texto, cremos que, assim como uma colcha de retalhos, os textos também são costurados: tecido a tecido, palavra por palavra, período por período, até sua forma mais conclusiva: o parágrafo. E estes também devem ser costurados uns aos outros.
Acontece que esta costura não pode se dar de qualquer maneira, ela deve obedecer uma certa “coerência”. Esta coerência, se usarmos a metáfora ao revés, transposta para uma colcha, que deve ser costurada com retalhos de cores que combinem. Assim é o texto. Tanto as palavras, como os períodos e mesmo os parágrafos devem obedecer uma certa ordem combinatória.
Para que haja coerência num texto, ele é auxiliado por elementos de “coesão”, tais como os pronomes anafóricos, substantivos sinônimos etc. Algumas conjunções, alguns advérbios ou mesmo certas locuções também fazem este trabalho, tais como: “assim”, “como dito antes”, “conforme exposto” e assim por diante.
1. Como e o que interpretar
Interpretar é o mesmo que mostrar aquilo que você entendeu do texto. Leia-se por entender um texto não apenas a decodificação daqueles signos que chamamos de letras. Ora, um texto nem sempre diz apenas aquilo que está escrito. Há, em todo texto, intertextualidade, ou seja, diálogo com outros textos. Assim como as ideias, que não são puras e nem 100% originais, os textos se nutrem de outros textos. A leitura, então, não deve ser rasa, superficial. Além de que, a atividade de leitura é cumulativa, quanto mais se lê, maior o entendimento (e o diálogo) entre os textos.
Numa prova, obviamente uma única leitura do texto é ineficiente. Devemos sempre fazer mais de uma leitura, visto que textos expostos em exercícios para provas de concurso não são e nem devem ser muitos extensos. Numa primeira leitura então, devemos fazer o reconhecimento, devemos nos ater no tema geral proposto pelo autor, ou seja, sobre o que o texto versa. Numa segunda (ou até terceira) leitura, esta sim podemos chamar de “leitura interpretativa”, devemos procurar grifar palavras-chave, termos que nos pareçam relevantes. É importantíssimo levar em consideração o CONTEXTO, ou seja, suas condições de produção, se o texto é: jornalístico, científico, humorístico, literário etc. Também é de suma importância entender o funcionamento do texto; de que forma os parágrafos estão organizados: há ligação (coesão) entre os parágrafos, tente ligar uma palavra ao parágrafo anterior; se há continuidade no assunto que está sendo tratado (coerência), ou se o autor mudou de assunto, se sim, descubra o porquê.
Segundo estudiosos de linha bakhtiniana, todo texto (ou quem o escreve) emite uma opinião, um juízo de valor. Sendo assim, e visto que grande parte dos textos expostos em provas são dissertativos, é importante levar em consideração os argumentos usados pelo autor para melhor fundamentar suas ideias. Note nos textos a importância de tais argumentos, e não apenas importantes na construção do texto, mas como ferramenta de persuasão do seu leitor. Também procure notar a disposição de tais argumentos para se chegar a uma dada conclusão. Falaremos sobre textos dissertativos mais adiante.
Quando se defrontar com uma palavra desconhecida, visto que na hora da prova você não poderá estar com o dicionário na mão, continue sem interrupção sua leitura e tente interpretá-la pelo contexto. Em 90% dos casos isso é eficiente.
Texto lido (pelo menos três vezes) é hora de partir para as questões. A leitura atenta e extensiva dos enunciados também é altamente necessária. Em muitos casos você irá perceber que a resposta está no próprio enunciado, de maneira bastante sutil ou escondida. Atenção para o que se pede e para palavrinhas mágicas, tais como: “errado”, “correto”, “única”, “não”, “incorreta”, “falsa”, “verdadeira” etc. Cuidado com palavras de ordem, tais como: “nunca”, “sempre”, “certamente” etc. Sempre que possível, assinale essas palavras na prova, para quando fizer uma releitura, elas se destaquem. Ou seja, deve-se prestar MUITA atenção no enunciado. E isso significa dizer que o enunciado é material passível de análise. Sim! O enunciado também deve ser interpretado, pois sua linguagem truncada e confusa, quase sempre, não é arbitrária.
Os enunciados podem pedir dois tipos de interpretação de texto: a) a subjetiva que, embora levando em consideração o conteúdo do texto-base, se valerá mais do teu conhecimento de mundo para responder às questões; b) a objetiva, e mais comum em provas de concursos. Estas, diferentes das subjetivas, se atêm mais no texto em si para a resolução das perguntas, ou seja, as respostas devem estar, necessariamente, no texto. Neste caso, não deixe que suas ideias prevaleçam sobre as do autor. Cuidado com eventuais conceitos que tenha (e preconceitos). Por exemplo, se determinado texto versa sobre o direito do cidadão em portar uma arma e você é um incauto pacifista; o que vale, sempre, é o que diz no texto e não, infelizmente, nossa opinião a respeito.
Pronto, agora, finalmente, vamos marcar a questão correta. Lembre-se, não há verdades absolutas, portanto procure marcar a questão que mais se enquadre (logicamente falando) com o texto em questão. Não se deve procurar, portanto, a verdade exata, mas a que mais se enquadre naquilo que foi pedido no enunciado. Há questões mais certas e menos certas, além, é claro, das erradas. Em grande parte dos casos (como comentado acima) a resposta, obviamente, está no texto; muitas vezes bastante escondida. É como uma espécie de charada. Neste caso, os textos das provas podem apresentar palavras ricas em SINÔNIMOS. Justamente para serem usados nas respostas. Assim, novamente, é de suma importância que conheçamos o maior número possível de palavras, que enriqueçamos cada vez mais nosso vocabulário. Lembre-se, é através da nossa linguagem que compreendemos melhor o mundo que nos cerca.
Ainda sobre a resolução das questões é importantíssimo mencionar que, voltar ao texto-base NUNCA é demais. Volte quantas vezes for necessário. De fato, o ideal seria recorrer ao texto a cada questão, mas o tempo infelizmente não nos permite. Sendo assim, vale a pena, ao menos, voltar ao texto nas questões de maior dificuldade. Uma dica final. Em toda e qualquer questão que exija interpretação objetiva, a resposta estará “no texto”, lembrem-se: o que está escrito, escrito está.
2. Uma pincelada nos principais gêneros textuais
a) Dissertativo/Argumentativo
A principal das características deste gênero é a presença extensiva de argumentos. Em jornais eles geralmente são chamados de “textos de opinião”, de “artigos” ou mesmo de “colunas”, ainda que este último termo seja mais genérico e, portanto, confuso de se classificar. Um texto dissertativo/argumentativo se caracteriza também por apresentar uma solução para um problema que ele mesmo propõe, embora isso não seja regra. Ora, se a principal característica de uma dissertação são seus argumentos, isso nos leva a crer que o elemento mais importante deste gênero é o argumento, a habilidade que tem o escritor de argumentar acerca de algo.
Na verdade um texto dissertativo nada mais é do que a junção lógica de argumentos, colocados de maneira coerente e ordenada para defender uma tese proposta pelo próprio texto. Aliás, tese é outra palavra-chave para se entender a estrutura deste gênero. Tese, segundo o dicionário, é a proposição, a exposição de um tema ou de um conjunto de ideias que se quer debater. Na verdade, uma boa dissertação irá trabalhar, jogar com as teses e suas antíteses. Antítese, como o próprio nome já diz, é a contra-argumentação daquilo que se disse. Ora, e por que o autor iria revidar sua própria opinião? Para reforçá-la. Por exemplo, se eu levanto uma tese de que o aborto deveria ser legalizado, posso usar uma antítese defendendo a vida e um argumento ainda mais forte que o primeiro que, em casos como o da menina de doze anos que foi estuprada e engravidou, e que portanto sua vida corria perigo; meu argumento final prevalecerá.
b) Narrativo
Um texto narrativo é bastante lembrado e facilmente identificável em aulas porque são textos que prefiguram na literatura. Seus elementos básicos, portanto, são: um enredo, geralmente bem delimitado por começo, meio e fim, ou seja, marcado temporalmente; a presença de personagens; a descrição de ambientes; há prevalência de verbos: e ainda a presença ostensiva de diálogos. Embora os textos de ficção sejam, eminentemente, narrativos, não são apenas textos ficcionais as narrativas. Temos narrativas mesmo em jornais. Note por exemplo os texto da “Tribuna do Paraná” ou do “Diário Popular”. Lembre-se do famoso sinônimo de narrar é “contar” uma história, um causo.
c) Descritivo
Descrever é representar verbalmente um referente no mundo e não apenas enumerar, coordenando assindeticamente, características rasas desses referentes, tais como, cor, tamanho, dimensão etc. A relevância de uma boa descrição às vezes é capital para o sucesso de um texto, por exemplo, as descrições técnicas de um móvel no manual de instruções é imprescindível para sua montagem. Há também as descrições literárias, que são, muitas das vezes, ricas em detalhes que nos traduzem não só as características físicas de certos personagens, mas seus trejeitos, gestos e manias.
Vale ainda lembrar que não existem textos puros. Em um texto dissertativo, por exemplo, pode conter uma pequena narrativa para lhe auxiliar. Mesmo um texto narrativo, frequentemente carece de descrições para enriquecê-lo.
Perceber o gênero do texto e a forma como ele foi construído são grandes armas para compreender e interpretar um texto. Com isso também o conhecimento de um léxico bastante vasto é essencial, portanto, leia muito e diariamente.
domingo, 17 de janeiro de 2010
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